Marcelo estava no corredor do prédio de Julia. Espera ansiosamente o momento de poder entrar e ver como ela estava. Mas Julia tinha sido muito clara com aquele berro. De repente a porta abriu: Era Natália:
- Mônica? – Marcelo prontamente levantou do degrau da escada e acabou dando um passo em falso, ainda tinham degraus a serem descidos. Segurou prontamente no corrimão de alumínio e conseguiu se equilibrar antes que pudesse ter um encontro nada agradável com a quina de outro degrau. Estava nervoso. Ajeitou-se e continuou: - E aí? Como ela está?
- Ela está dormindo. Não está mais sentindo dor. Melhor deixar ela um pouco lá.
- O que ela tem afinal? – Marcelo estava se dirigindo a porta.
- Não sei, na verdade ela também não me disse o que era. Melhor respeita-la e deixar que durma por um tempo. - Nesse momento Marcelo parou e resolveu concordar com Natália. Iria deixar ela um pouco ali. Iria arrumar algo para fazer enquanto esperava. - Que tal a gente dar uma volta por aí enquanto ela dá uma cochilada?
- Tudo bem. Mas você não ia ficar aí com ela?
- Não. Ela pediu para que eu também a deixasse sozinha. – Natália fechou a porta que estava ainda um pouco entreaberta. – Vamos lá?
Os dois seguiram pelas ruas, passaram o BNH, um complexo de prédios comunitário, e Natália apontou para uma das ruas, incrível ela saber qual é pois todas eram iguais, pensou Marcelo, e disse que ali era onde um grande amigo dela morava.
- Pena que ele está indo pro mau caminho. – Natália comentava ao ar.
- Não é a toa... Olha onde ele mora! – Marcelo também falava sem pensar. Natália virou e olhou com uma cara feia. Marcelo logo se tocou e resolveu remediar. – Desculpe, às vezes falo sem pensar. Mas é que não deixa de ser verdade. Olha as caras feias deles enquanto a gente passa.
- Você é que ta olhando sem motivo. Qualquer pessoa normal faria cara feia. Adicione também o fato de você estar bem vestido, apesar de desarrumado, e a cara de nojo que fez ao olhar as paredes e as sacadas com roupas penduradas. – Natália olhou pra Marcelo depois de terminar de falar e deu um sorriso irônico. Ele suspirou:
- Admito, sou culpado. Me desculpe.
- Tudo bem, vamos sentar ali? – Estavam de frente para um shopping que tinha uma bonita fonte com estátuas de, provavelmente, como pensava Marcelo, Deuses Gregos do mar.
- Vamos sentar na fonte. – E se sentaram. Por um tempo o silêncio reinou. Depois de um tempo de silêncio, provavelmente por causa de pensamentos sobre Julia, Natália resolveu quebrar o gelo.
- Você conhece a Julia faz muito tempo?
- Não faz muito tempo. Apesar de que parece que a conheço faz gerações.
- Eu sei como você se sente – Natália deu uma risada de concordância enquanto falava. – Eu só comecei a falar com ela esses dias.
- É da escola dela?
- Sim, sim. Somos de classes diferentes. Mas do mesmo ano. Ela é da 3ªA, eu sou da 3ªF.
- Eu tenho curiosidade de saber como ela é na escola... Ela deve ser muito popular. Não tem quem resista a ela! – Marcelo estava, como sempre, com sua prancha na maionese.
- Hahaha. Você é um bobinho apaixonado mesmo. – Natália continuava rindo enquanto falava. – Ela na verdade é sozinha lá. Nunca vi ela conversar com ninguém. Ela no intervalo fica lá num muro parada observando o movimento do pátio, das casas ao lado, do céu...
- Nossa! Nunca imaginaria isso. – Marcelo estava realmente surpreso, e envergonhado pelo fora que tinha dado com sua viagem. – Porque será que é assim?
- Não sei, talvez ela esteja desiludida com esse mundo...
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Júlia acordou. Não estava mais sentindo dor alguma, mas chorava compulsivamente na sua cama, com a cara no travesseiro. Queria parar, mas não conseguia. E era sempre assim, dificilmente chorava na frente das pessoas, mas quando estava sozinha compensava a falta de choro e se alagava no meio de suas lágrimas. Olhou para o lado, pegou um copo de água deixado ali do lado de sua cama e bebeu para se acalmar. Ainda soluçava um pouco. De repente ouviu um barulho, alguém tinha chegado.
- Já disse pra deixarem a porta trancada! – Ouviu a voz e logo reconheceu o tom. Era sua mãe chegando e reclamando de tudo que via de errado pela frente. Com o tempo a voz foi se aproximando até que uma mulher apareceu a frente da porta do quarto. – Que bagunça é essa menina?
- A dor voltou. Não conseguia levantar. – Disse Julia um pouco nervosa e seca.
- E vai me dizer que a dor durou até agora? Que foi o dia todo? Já cansei dessa desculpa. – Saiu resmungando para a cozinha, de onde provavelmente tenha dado mais um berro ao olhar para a pia cheia de louça.
Julia virou pro lado e viu que tinha dormido a manhã toda e mais um pouco à tarde. Já eram quatro horas. Resolveu levantar e tomar um banho. Suas costas provavelmente estavam cheias de sangue. Retirou o plástico que usava na cama e levou-o junto para lava-lo no chuveiro.
Durante o banho, suas costas continuavam a arder. Aquela dor a perseguia desde pequena. Imaginava como teria sobrevivido a essas dores enquanto era apenas um bebê. A maldita chegava sempre de surpresa. Às vezes mais fraca, às vezes mais forte como naquela manhã. Uma vez aconteceu de a dor aparecer no meio de uma brincadeira com outras colegas do primário. A partir daquele dia as crianças nunca mais se aproximaram dela com medo do que viram. Depois disso Júlia decidiu não se aproximar muito das pessoas. Principalmente as que tinha de ver todos os dias. Poucas pessoas se aproximaram dela, a maioria garotos que se aproximavam pela beleza dela. Amoleceu com o tempo e chegou até a ceder pra um garoto, André. Ele sempre perseguia Julia com cartas e declarações de amor. Julia soube de sua fama e resolveu aproveitar o momento, achou que faria bem viver um pouco. Afinal esse era um relacionamento que acabaria um dia, tinha certeza. Demorou um pouco mais, mas finalmente André um dia desistiu. Júlia achava que estava bem daquele jeito, mas com o tempo foi sentindo saudades de algum amor, de amigos... Foi quando encontrou Marcelo no banco de praia.
- Aquele bobo. Foi bom enquanto durou... – Julia já pensava no dia seguinte. Já via Marcelo a evitando... Continuou a chorar lágrimas invisíveis entre a água que caia do chuveiro enquanto cantava:
“In a little while
I'll be gone
The moment's already passed
Yeah it's gone
And I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
Strobe lights and blown speakers
Fireworks and hurricanes
I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here”

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