A aula havia acabado, Marcelo e André estavam se dirigindo à saída. Mas na hora de se despedirem Marcelo falou:
- André, vamos ao Hollywood?
- Agora? Não posso ficar atrasando muito pra chegar em casa, senão pegam no meu pé. – Disse sorrindo como sempre.
- Agora. É importante. – Marcelo disse seriamente. O que fez André estranhar e resolver aceitar o convite.
Chegando lá Marcelo pediu um café e André preferiu um suco qualquer. No estabelecimento, como sempre, tocava uma música mais antiga:
“Everybody trying to tell me that you didn't mean me no good.
I've been trying, lord, let me tell you, let me tell you I really did the best I could.
I've been working from seven to eleven every night, I said it kinda makes my life a drag.
Lord, that ain't right...
Since I’ve been loving you, I’m about to lose my worried mind.”
- Siiiiinnnnccceeeeeeee… cof – André tirava um sarro enquanto ouvia a música. Marcelo continuava sério olhando para a janela.
- Parece que ele não está muito bem! – Disse o dono do Café.
- Concordo com o senhor – Disse André com a voz um pouco rouca, tinha exagerado um pouco no berro. Voltou-se para Marcelo – E aí, o que foi que aconteceu garoto?
- Julia. – Disse secamente e em voz baixa.
- Que tem ela? Vai dizer que ela te deu um pé?!
- Não... O que eu queria perguntar para você é... – Parou um pouco, pois André levantou para pegar as bebidas e o açúcar.
- Pronto, pode continuar. – André piscou enquanto bebia um gole de suco.
- Queria saber se Julia tem alguma doença...
André parou de beber o suco, olhou para Marcelo de um modo sério e preocupado.
- Como assim? Ela está mal?
- Ontem... Ela estava na cama, muito quente, muito mal. Deu um berro para que eu saísse do quarto dela. Você não sabe de nada? – Marcelo fitava André no rosto esperando uma resposta com a cara mais preocupada que tinha.
André também não estava com uma cara boa agora, mas acabou dizendo:
- O café vai esfriar. Melhor tomar antes que fique horrível. – Depois voltou ao clima sério, enquanto Marcelo colocava açúcar no café, deixando muitos dos cristais caírem em volta da xícara. – Olha Celo... Eu não sei. Julia sempre escondeu as coisas de mim. Ela sumia alguns dias e não dava notícias... Era estranho.
- Entendo... Agora eu não sei o que fazer. Do jeito que ela falou comigo...
- Marcelo, olhe pra sua cara. Você está um caco por causa disso. Bem que eu percebi que não estava prestando atenção na aula. – André catou a colher de açúcar da mão de Marcelo, serviu e mexeu o açúcar que estava acabando já de tanto desperdício. – Você gosta dela, não?
- Sim.
- Então vá ver ela. Já passou, foi ontem. Aposto que Julia deve estar pensando que você vai abandonar ela por causa desse fato estranho. Conheço a figura. – Na verdade André não conhecia quase nada de Julia, mas era por uma boa causa. – Quer que eu vá junto?
- Pode? Eu não queria aparecer sozinho... – Marcelo estava com medo.
- Posso, mas depois não vou ficar segurando vela, hein? – André deu um tapinha na testa de Marcelo e levantou para pagar as bebidas. – Deixa essa por minha conta. – Deu o dinheiro pro homem que ao devolver o troco chegou perto de André pra dizer:
- Mulher? – Fez sinal com a cabeça na direção de Marcelo
- Pois é... Esses garotos de hoje em dia! – André disse num tom mais alto para chamar a atenção do amigo. – Vamos lá? – Jogou um chiclete na direção de Marcelo que depois de dar uns cinco tapas em falso no doce pra tentar pegar deixou-o cair pela janela do estabelecimento. – É melhor irmos mesmo!
- Foi só um momento de distração. – Disse Marcelo um pouco seco e envergonhado. – Vamos, vamos.
Pegaram o ônibus num ponto ali perto. Marcelo foi calado, olhando para a rua, preocupado. André preferiu não falar nada e ficou olhando o movimento no próprio ônibus. Uma senhora velha estava comentando com uma mulher que tinha cedido o lugar para ela:
- Hoje em dia não existem muitas pessoas como você, minha filha. Acredita que ontem um garoto jovem passou na frente de mim só pra sentar no banco antes de mim? Fiquei toda balançando no ônibus.
- Pois é senhora! Essas coisas infelizmente acontecem!
- Ééé, e não é só isso... – Continuou a velha por um tempo. André não ouviu até o fim porque o ônibus já havia chego no ponto em que desceriam.
- E por onde vamos, Romeu? – André deu um abraço de um braço em Marcelo enquanto andava.
- Por ali. – Bufou Marcelo.
- Positivo e operante, capitão!
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Julia estava cansada. Foi para escola mesmo depois do acontecimento do dia anterior. Não conseguiu entender nada do que o professor disse. Ignorou tudo o que disseram para ela. Estava chegando em sua casa, estava na mesma quadra já. Mas quando virou a esquina, voltou bruscamente. Tinha visto algo: Marcelo. O que ele estava fazendo em frente a sua casa? O que André fazia do lado dele? Ficou ali, parada, esperando e espiando enquanto Marcelo recebia a notícia da mãe de Julia que ela não estava, mas deveria voltar em breve.
- Pois é, vamos esperar? – Disse André.
- Vamos, ela deve estar chegando. – Marcelo sentou na calçada encostando-se à parede do prédio. Continuava sério.
- O que pretende falar para ela?
- Não sei. Só queria ver ela, mostrar que estou aqui pro que der e vier.
- E você está mesmo pronto pro que der e vier? – André virou o rosto para olhar Marcelo e percebeu que alguém estava os espionando.
- S-Sim, né? Eu amo ela.
- Que palavra forte garoto. Como pode usá-la assim?
- Não sei, só sei que é o que eu sinto e pronto. – Marcelo aumentou o tom de voz. Precisa de explicação séria?
- Mas é claro, que coisa! Me diz, o que você viu na Julia?
- Tudo ora bolas. Julia é linda, engraçada, divertida, carinhosa, inteligente. Não tem como não ser sugado por ela todo o momento. Eu não estudo direito, eu não durmo direito, eu não como direito. Eu fico pensando se ela está bem agora, porque ela foi pra escola mesmo daquele jeito...
- Mas que munitinho! Ó Marcelo Augusto – André colocou o braço na testa imitando algum ator de novela mexicana.
- Você faz isso porque não entende o que eu passo. Você é galinha.
- Pelo menos não fico aí chorando. Bem, tenho de ir, não posso ficar aqui recebendo xingamentos o dia todo. Tenho mais o que fazer. – André levantou e saiu andando até virar a esquina do lado.
- Até... – Marcelo falou antes dele virar.
Quando André virou a esquina, deu de cara com Julia e piscou para ela. Julia estava chorando, mas estava muito feliz, estava sorrindo enquanto chorava. Deu um beijo na bochecha de André e virou. Marcelo tinha levantado e estava de costas para ela, ela deu um pulo nas costas dele. Assustando por um espaço pequeno de tempo.
- Pensei que nunca mais iria te ver. – Julia dizia ainda chorando um pouco.
- Pois é, eu também achei que nunca iria ver você também. Achei que iria me evitar. André que me deu coragem para vir aqui. – Marcelo não agüentou por muito o tempo o peso de Julia, era muito magrelo. Deixou-a descer, virou de frente pra ela e deu-lhe um beijo, um beijo muito mais intenso do que os anteriores.
- Bobo, nunca faria isso com você. Mas me diz, tudo aquilo que disse pro André era verdade?
- Você ouviu?
- Julia sabe de tudo! – Piscou pra ele.
- Ó, não tenho segredos! – Marcelo colocou a mão na sua cabeça. – Mas, sim, era verdade. Nunca minto para André. Não vale a pena. – Deu uma risada. – Mas, eu gostaria de saber, o que foi aquilo?
- Vamos subir. – Disse Julia de prontidão como se fosse a coisa mais lógica a fazer.
-Ok. - Marcelo segurou a sua mão e subiu com ela.
O quarto de Julia estava bem desarrumado, com cobertas pelo chão e livros abertos pelos cantos. Marcelo se assustou um pouco, mas disfarçou. Estava preocupado com outra coisa agora.
- Ta uma bagunça, eu sei, ta? – Julia deu um sorriso para Marcelo enquanto admitia sua culpa.
- Tudo bem, o meu fica assim às vezes. – Marcelo sentou na cama, do lado de Julia e voltou ao assunto. – E então?
Tudo que se ouviu, foi a explicação de sempre. Ela não sabia o que era aquilo, só sabia que aquilo atrapalhava sua vida, contou das perdas, dos desesperos, desabafou com Marcelo. Até sobre André.
- Nossa Julia... – Marcelo estava mudo depois de ouvir aquilo tudo. Julia estava com lágrimas ao olho. – Eu não sei o que falar... Que barra pesada...
- Tudo bem, eu sei que é estranho. – Julia disse meio envergonhada.
- Mas você disse que a dor aumenta cada vez mais. E agora está muito forte, será que não é melhor procurar mais ajuda?
- Ninguém pode me ajudar Marcelo. O importante pra mim é você ficar ao meu lado.
- Então eu ficarei! Pode contar comigo! – Marcelo deu um selinho no rosto de Julia tentando anima-la.
- Séeerio? Vou acreditar, hein? – Julia chegava perto de Marcelo para dar-lhe outro beijo.
De repente ouviu-se uma voz ao fundo:
- E aí menina? Vai ficar aí o dia todo ou vai me ajudar a arrumar tudo? Tem que estudar também! Não é hora de namoricos! – A voz parecia bem irritada.
- Opa, melhor você ir Marcelo. Depois a gente se vê, né? – Julia deu outro selinho nele.
- Pode deixar! E eu vou estar sempre do seu lado hein? – Marcelo ia saindo pela porta.
- Olha lá! Sem quebrar promessas. Quero você sempre do meu lado...
Marcelo saiu pela porta, Julia levantou triste de sua cama e enquanto arrumava sua cama lágrimas caiam mais uma vez.
-... Mesmo que isso só faça a dor aumentar...
“If you still want me, please forgive me,
the crown of love is not upon me
If you still want me, please forgive me,
cause this crown is not within me.
it’s not within me, it’s not within me.”

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