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A aula havia acabado, Marcelo e André estavam se dirigindo à saída. Mas na hora de se despedirem Marcelo falou:

- André, vamos ao Hollywood?

- Agora? Não posso ficar atrasando muito pra chegar em casa, senão pegam no meu pé. – Disse sorrindo como sempre.

- Agora. É importante. – Marcelo disse seriamente. O que fez André estranhar e resolver aceitar o convite.

Chegando lá Marcelo pediu um café e André preferiu um suco qualquer. No estabelecimento, como sempre, tocava uma música mais antiga:

“Everybody trying to tell me that you didn't mean me no good.
I've been trying, lord, let me tell you, let me tell you I really did the best I could.
I've been working from seven to eleven every night, I said it kinda makes my life a drag.
Lord, that ain't right...
Since I’ve been loving you, I’m about to lose my worried mind.”

- Siiiiinnnnccceeeeeeee… cof – André tirava um sarro enquanto ouvia a música. Marcelo continuava sério olhando para a janela.

- Parece que ele não está muito bem! – Disse o dono do Café.

- Concordo com o senhor – Disse André com a voz um pouco rouca, tinha exagerado um pouco no berro. Voltou-se para Marcelo – E aí, o que foi que aconteceu garoto?

- Julia. – Disse secamente e em voz baixa.

- Que tem ela? Vai dizer que ela te deu um pé?!

- Não... O que eu queria perguntar para você é... – Parou um pouco, pois André levantou para pegar as bebidas e o açúcar.

- Pronto, pode continuar. – André piscou enquanto bebia um gole de suco.

- Queria saber se Julia tem alguma doença...

André parou de beber o suco, olhou para Marcelo de um modo sério e preocupado.

- Como assim? Ela está mal?

- Ontem... Ela estava na cama, muito quente, muito mal. Deu um berro para que eu saísse do quarto dela. Você não sabe de nada? – Marcelo fitava André no rosto esperando uma resposta com a cara mais preocupada que tinha.

André também não estava com uma cara boa agora, mas acabou dizendo:

- O café vai esfriar. Melhor tomar antes que fique horrível. – Depois voltou ao clima sério, enquanto Marcelo colocava açúcar no café, deixando muitos dos cristais caírem em volta da xícara. – Olha Celo... Eu não sei. Julia sempre escondeu as coisas de mim. Ela sumia alguns dias e não dava notícias... Era estranho.

- Entendo... Agora eu não sei o que fazer. Do jeito que ela falou comigo...

- Marcelo, olhe pra sua cara. Você está um caco por causa disso. Bem que eu percebi que não estava prestando atenção na aula. – André catou a colher de açúcar da mão de Marcelo, serviu e mexeu o açúcar que estava acabando já de tanto desperdício. – Você gosta dela, não?

- Sim.

- Então vá ver ela. Já passou, foi ontem. Aposto que Julia deve estar pensando que você vai abandonar ela por causa desse fato estranho. Conheço a figura. – Na verdade André não conhecia quase nada de Julia, mas era por uma boa causa. – Quer que eu vá junto?

- Pode? Eu não queria aparecer sozinho... – Marcelo estava com medo.

- Posso, mas depois não vou ficar segurando vela, hein? – André deu um tapinha na testa de Marcelo e levantou para pagar as bebidas. – Deixa essa por minha conta. – Deu o dinheiro pro homem que ao devolver o troco chegou perto de André pra dizer:

- Mulher? – Fez sinal com a cabeça na direção de Marcelo

- Pois é... Esses garotos de hoje em dia! – André disse num tom mais alto para chamar a atenção do amigo. – Vamos lá? – Jogou um chiclete na direção de Marcelo que depois de dar uns cinco tapas em falso no doce pra tentar pegar deixou-o cair pela janela do estabelecimento. – É melhor irmos mesmo!

- Foi só um momento de distração. – Disse Marcelo um pouco seco e envergonhado. – Vamos, vamos.

Pegaram o ônibus num ponto ali perto. Marcelo foi calado, olhando para a rua, preocupado. André preferiu não falar nada e ficou olhando o movimento no próprio ônibus. Uma senhora velha estava comentando com uma mulher que tinha cedido o lugar para ela:

- Hoje em dia não existem muitas pessoas como você, minha filha. Acredita que ontem um garoto jovem passou na frente de mim só pra sentar no banco antes de mim? Fiquei toda balançando no ônibus.

- Pois é senhora! Essas coisas infelizmente acontecem!

- Ééé, e não é só isso... – Continuou a velha por um tempo. André não ouviu até o fim porque o ônibus já havia chego no ponto em que desceriam.

- E por onde vamos, Romeu? – André deu um abraço de um braço em Marcelo enquanto andava.
- Por ali. – Bufou Marcelo.

- Positivo e operante, capitão!

---

Julia estava cansada. Foi para escola mesmo depois do acontecimento do dia anterior. Não conseguiu entender nada do que o professor disse. Ignorou tudo o que disseram para ela. Estava chegando em sua casa, estava na mesma quadra já. Mas quando virou a esquina, voltou bruscamente. Tinha visto algo: Marcelo. O que ele estava fazendo em frente a sua casa? O que André fazia do lado dele? Ficou ali, parada, esperando e espiando enquanto Marcelo recebia a notícia da mãe de Julia que ela não estava, mas deveria voltar em breve.

- Pois é, vamos esperar? – Disse André.

- Vamos, ela deve estar chegando. – Marcelo sentou na calçada encostando-se à parede do prédio. Continuava sério.

- O que pretende falar para ela?

- Não sei. Só queria ver ela, mostrar que estou aqui pro que der e vier.

- E você está mesmo pronto pro que der e vier? – André virou o rosto para olhar Marcelo e percebeu que alguém estava os espionando.

- S-Sim, né? Eu amo ela.

- Que palavra forte garoto. Como pode usá-la assim?

- Não sei, só sei que é o que eu sinto e pronto. – Marcelo aumentou o tom de voz. Precisa de explicação séria?

- Mas é claro, que coisa! Me diz, o que você viu na Julia?

- Tudo ora bolas. Julia é linda, engraçada, divertida, carinhosa, inteligente. Não tem como não ser sugado por ela todo o momento. Eu não estudo direito, eu não durmo direito, eu não como direito. Eu fico pensando se ela está bem agora, porque ela foi pra escola mesmo daquele jeito...

- Mas que munitinho! Ó Marcelo Augusto – André colocou o braço na testa imitando algum ator de novela mexicana.

- Você faz isso porque não entende o que eu passo. Você é galinha.

- Pelo menos não fico aí chorando. Bem, tenho de ir, não posso ficar aqui recebendo xingamentos o dia todo. Tenho mais o que fazer. – André levantou e saiu andando até virar a esquina do lado.

- Até... – Marcelo falou antes dele virar.
Quando André virou a esquina, deu de cara com Julia e piscou para ela. Julia estava chorando, mas estava muito feliz, estava sorrindo enquanto chorava. Deu um beijo na bochecha de André e virou. Marcelo tinha levantado e estava de costas para ela, ela deu um pulo nas costas dele. Assustando por um espaço pequeno de tempo.

- Pensei que nunca mais iria te ver. – Julia dizia ainda chorando um pouco.

- Pois é, eu também achei que nunca iria ver você também. Achei que iria me evitar. André que me deu coragem para vir aqui. – Marcelo não agüentou por muito o tempo o peso de Julia, era muito magrelo. Deixou-a descer, virou de frente pra ela e deu-lhe um beijo, um beijo muito mais intenso do que os anteriores.

- Bobo, nunca faria isso com você. Mas me diz, tudo aquilo que disse pro André era verdade?

- Você ouviu?

- Julia sabe de tudo! – Piscou pra ele.

- Ó, não tenho segredos! – Marcelo colocou a mão na sua cabeça. – Mas, sim, era verdade. Nunca minto para André. Não vale a pena. – Deu uma risada. – Mas, eu gostaria de saber, o que foi aquilo?

- Vamos subir. – Disse Julia de prontidão como se fosse a coisa mais lógica a fazer.

-Ok. - Marcelo segurou a sua mão e subiu com ela.

O quarto de Julia estava bem desarrumado, com cobertas pelo chão e livros abertos pelos cantos. Marcelo se assustou um pouco, mas disfarçou. Estava preocupado com outra coisa agora.

- Ta uma bagunça, eu sei, ta? – Julia deu um sorriso para Marcelo enquanto admitia sua culpa.

- Tudo bem, o meu fica assim às vezes. – Marcelo sentou na cama, do lado de Julia e voltou ao assunto. – E então?

Tudo que se ouviu, foi a explicação de sempre. Ela não sabia o que era aquilo, só sabia que aquilo atrapalhava sua vida, contou das perdas, dos desesperos, desabafou com Marcelo. Até sobre André.

- Nossa Julia... – Marcelo estava mudo depois de ouvir aquilo tudo. Julia estava com lágrimas ao olho. – Eu não sei o que falar... Que barra pesada...

- Tudo bem, eu sei que é estranho. – Julia disse meio envergonhada.

- Mas você disse que a dor aumenta cada vez mais. E agora está muito forte, será que não é melhor procurar mais ajuda?

- Ninguém pode me ajudar Marcelo. O importante pra mim é você ficar ao meu lado.
- Então eu ficarei! Pode contar comigo! – Marcelo deu um selinho no rosto de Julia tentando anima-la.

- Séeerio? Vou acreditar, hein? – Julia chegava perto de Marcelo para dar-lhe outro beijo.

De repente ouviu-se uma voz ao fundo:

- E aí menina? Vai ficar aí o dia todo ou vai me ajudar a arrumar tudo? Tem que estudar também! Não é hora de namoricos! – A voz parecia bem irritada.

- Opa, melhor você ir Marcelo. Depois a gente se vê, né? – Julia deu outro selinho nele.

- Pode deixar! E eu vou estar sempre do seu lado hein? – Marcelo ia saindo pela porta.

- Olha lá! Sem quebrar promessas. Quero você sempre do meu lado...

Marcelo saiu pela porta, Julia levantou triste de sua cama e enquanto arrumava sua cama lágrimas caiam mais uma vez.

-... Mesmo que isso só faça a dor aumentar...

“If you still want me, please forgive me,
the crown of love is not upon me
If you still want me, please forgive me,
cause this crown is not within me.
it’s not within me, it’s not within me.”

[PLAY]
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Marcelo estava no corredor do prédio de Julia. Espera ansiosamente o momento de poder entrar e ver como ela estava. Mas Julia tinha sido muito clara com aquele berro. De repente a porta abriu: Era Natália:

- Mônica? – Marcelo prontamente levantou do degrau da escada e acabou dando um passo em falso, ainda tinham degraus a serem descidos. Segurou prontamente no corrimão de alumínio e conseguiu se equilibrar antes que pudesse ter um encontro nada agradável com a quina de outro degrau. Estava nervoso. Ajeitou-se e continuou: - E aí? Como ela está?

- Ela está dormindo. Não está mais sentindo dor. Melhor deixar ela um pouco lá.

- O que ela tem afinal? – Marcelo estava se dirigindo a porta.

- Não sei, na verdade ela também não me disse o que era. Melhor respeita-la e deixar que durma por um tempo. - Nesse momento Marcelo parou e resolveu concordar com Natália. Iria deixar ela um pouco ali. Iria arrumar algo para fazer enquanto esperava. - Que tal a gente dar uma volta por aí enquanto ela dá uma cochilada?

- Tudo bem. Mas você não ia ficar aí com ela?

- Não. Ela pediu para que eu também a deixasse sozinha. – Natália fechou a porta que estava ainda um pouco entreaberta. – Vamos lá?

Os dois seguiram pelas ruas, passaram o BNH, um complexo de prédios comunitário, e Natália apontou para uma das ruas, incrível ela saber qual é pois todas eram iguais, pensou Marcelo, e disse que ali era onde um grande amigo dela morava.

- Pena que ele está indo pro mau caminho. – Natália comentava ao ar.

- Não é a toa... Olha onde ele mora! – Marcelo também falava sem pensar. Natália virou e olhou com uma cara feia. Marcelo logo se tocou e resolveu remediar. – Desculpe, às vezes falo sem pensar. Mas é que não deixa de ser verdade. Olha as caras feias deles enquanto a gente passa.

- Você é que ta olhando sem motivo. Qualquer pessoa normal faria cara feia. Adicione também o fato de você estar bem vestido, apesar de desarrumado, e a cara de nojo que fez ao olhar as paredes e as sacadas com roupas penduradas. – Natália olhou pra Marcelo depois de terminar de falar e deu um sorriso irônico. Ele suspirou:

- Admito, sou culpado. Me desculpe.

- Tudo bem, vamos sentar ali? – Estavam de frente para um shopping que tinha uma bonita fonte com estátuas de, provavelmente, como pensava Marcelo, Deuses Gregos do mar.

- Vamos sentar na fonte. – E se sentaram. Por um tempo o silêncio reinou. Depois de um tempo de silêncio, provavelmente por causa de pensamentos sobre Julia, Natália resolveu quebrar o gelo.

- Você conhece a Julia faz muito tempo?

- Não faz muito tempo. Apesar de que parece que a conheço faz gerações.

- Eu sei como você se sente – Natália deu uma risada de concordância enquanto falava. – Eu só comecei a falar com ela esses dias.

- É da escola dela?

- Sim, sim. Somos de classes diferentes. Mas do mesmo ano. Ela é da 3ªA, eu sou da 3ªF.

- Eu tenho curiosidade de saber como ela é na escola... Ela deve ser muito popular. Não tem quem resista a ela! – Marcelo estava, como sempre, com sua prancha na maionese.

- Hahaha. Você é um bobinho apaixonado mesmo. – Natália continuava rindo enquanto falava. – Ela na verdade é sozinha lá. Nunca vi ela conversar com ninguém. Ela no intervalo fica lá num muro parada observando o movimento do pátio, das casas ao lado, do céu...

- Nossa! Nunca imaginaria isso. – Marcelo estava realmente surpreso, e envergonhado pelo fora que tinha dado com sua viagem. – Porque será que é assim?

- Não sei, talvez ela esteja desiludida com esse mundo...

---

Júlia acordou. Não estava mais sentindo dor alguma, mas chorava compulsivamente na sua cama, com a cara no travesseiro. Queria parar, mas não conseguia. E era sempre assim, dificilmente chorava na frente das pessoas, mas quando estava sozinha compensava a falta de choro e se alagava no meio de suas lágrimas. Olhou para o lado, pegou um copo de água deixado ali do lado de sua cama e bebeu para se acalmar. Ainda soluçava um pouco. De repente ouviu um barulho, alguém tinha chegado.

- Já disse pra deixarem a porta trancada! – Ouviu a voz e logo reconheceu o tom. Era sua mãe chegando e reclamando de tudo que via de errado pela frente. Com o tempo a voz foi se aproximando até que uma mulher apareceu a frente da porta do quarto. – Que bagunça é essa menina?

- A dor voltou. Não conseguia levantar. – Disse Julia um pouco nervosa e seca.

- E vai me dizer que a dor durou até agora? Que foi o dia todo? Já cansei dessa desculpa. – Saiu resmungando para a cozinha, de onde provavelmente tenha dado mais um berro ao olhar para a pia cheia de louça.

Julia virou pro lado e viu que tinha dormido a manhã toda e mais um pouco à tarde. Já eram quatro horas. Resolveu levantar e tomar um banho. Suas costas provavelmente estavam cheias de sangue. Retirou o plástico que usava na cama e levou-o junto para lava-lo no chuveiro.

Durante o banho, suas costas continuavam a arder. Aquela dor a perseguia desde pequena. Imaginava como teria sobrevivido a essas dores enquanto era apenas um bebê. A maldita chegava sempre de surpresa. Às vezes mais fraca, às vezes mais forte como naquela manhã. Uma vez aconteceu de a dor aparecer no meio de uma brincadeira com outras colegas do primário. A partir daquele dia as crianças nunca mais se aproximaram dela com medo do que viram. Depois disso Júlia decidiu não se aproximar muito das pessoas. Principalmente as que tinha de ver todos os dias. Poucas pessoas se aproximaram dela, a maioria garotos que se aproximavam pela beleza dela. Amoleceu com o tempo e chegou até a ceder pra um garoto, André. Ele sempre perseguia Julia com cartas e declarações de amor. Julia soube de sua fama e resolveu aproveitar o momento, achou que faria bem viver um pouco. Afinal esse era um relacionamento que acabaria um dia, tinha certeza. Demorou um pouco mais, mas finalmente André um dia desistiu. Júlia achava que estava bem daquele jeito, mas com o tempo foi sentindo saudades de algum amor, de amigos... Foi quando encontrou Marcelo no banco de praia.

- Aquele bobo. Foi bom enquanto durou... – Julia já pensava no dia seguinte. Já via Marcelo a evitando... Continuou a chorar lágrimas invisíveis entre a água que caia do chuveiro enquanto cantava:

“In a little while
I'll be gone
The moment's already passed
Yeah it's gone
And I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here

Strobe lights and blown speakers
Fireworks and hurricanes
I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here”

[PLAY]

Chegava à hora. Finalmente Marcelo iria ver sua amada. Chegou mais cedo, eram sete horas ainda. Tinha levado o violão para tocar para sua amada. Treinava algumas músicas enquanto ela não chegava:

“I paint a picture of the days gone by,
When love went blind and you would make me see.
I'd stare a lifetime into your eyes.
So that I knew you were there for me,
Time after time, you were there for me.”

- Como canta mal hein? – Alguém estava falando com ele. Não era uma voz muito familiar, mas já a tinha ouvido antes. Resolveu virar para ver quem era e se surpreendeu.

- Você? – Marcelo estava realmente espantado. – Ainda bem que você está bem.

- Há. Quanta preocupação... Por acaso está gamado em mim? – Carlos falava brincadeiras mas com uma cara muito estranha. Que de repente se tornou algo raivoso e confuso – Por que você me salvou àquela hora hein?

- Eu fiz o que achava certo. – Marcelo replicou sobriamente.

- Certo? Você quer se matar? Por um inútil como eu?

- Não quero me matar, quero que ninguém morra. Se eu puder evitar, eu evito. – Marcelo estava falando aquilo e pensando em como aquelas frases eram bonitas. Achou até que tinha visto em alguma história de cavaleiros nobres.

- Você é maluco. Em que mundo você vive hein? – Carlos saiu andando. Marcelo ficou confuso no começo, mas logo resolveu emendar:

- Ei, não quer fazer parceria comigo? Você tem uma voz boa! – Berrou.

Não vale a pena falar aqui qual foi a resposta de Carlos. Não seria de bom tom. Tudo que pode ser dito é que algum gesto ele fez, e não foi bonito.

- Olá! – Outra voz. Só que essa ele conhecia muito bem.

- Júli... – Virou mas não viu ninguém. O que sentiu foi um peso enorme em suas costas.

- Há! Te peguei! – Julia abraçava Marcelo enquanto dava muitas risadas da reação do namorado. Ele tinha até soltado um pequeno berro mais agudo. – Que medo hein?

- Você me pegou mesmo... Sua... Sua... – Sua boca agora estava impossibilitada de dizer qualquer palavra. Não havia raio que partisse aquele momento.

- E aí, trouxe seu livro? – Marcelo perguntou ansioso.

- Como prometido! Aqui está ele. – Puxou uma pasta com um monte de folhas juntas e entregou a Marcelo.
- Quantas páginas! Tem quantas aqui? – Marcelo dava uma rápida folheada no bolo.

- Umas 150. Não é tanto assim! – Júlia dava uma risada.

- Deixa eu ver o título... Não tem ainda?

- Não. Estou pensando num. Se tiver alguma idéia me avise!

- Pode deixar. Vou ler com carinho. – Marcelo piscou e depois a noite se prolongou naquele banco de praia.

---

Marcelo se sentia animado. Sempre era bom sair com Júlia. Seus olhos, seus lábios e principalmente sua habilidade de tornar dia à noite, sem que você percebesse, apenas conversando. Trocou de roupa e deitou na cama. Ia ler o livro de Júlia amanhã. Já eram 3 da manhã. Estava morto de sono. Quando tentou dormir, não conseguiu. Era mais uma vez a síndrome de Júlia, como gostava de chamar. Resolveu então ler um pouco do livro:

“ Então eu me matei. Não foi rápido, não foi lento, foi um momento a parte. Meus olhos caiam junto com o meu corpo. O som oco de minha cabeça batendo no palco foi ouvido. Uma ironia. Afinal, sempre me orgulhei de minha banda fazer o maior barulho da cidade.

Como isso aconteceu? Não sei dizer como. Não havia um grande motivo especifico. Algum sentimento invadiu meu coração naquele momento e eu não sei qual era. Talvez agora que sou um anjo e escrevo minhas memórias com penas celestiais eu veja o porquê de minha morte.”

Marcelo não conseguia parar. O texto era realmente legal. E ainda por cima era escrito por alguém que ele tanto amava. Não tinha como ele parar. Terminou-o perto das cinco da manhã. Estava agora pensando no texto, pensando em Júlia... Agora que ele não iria conseguir dormir mesmo.

- Pra que fui ler o livro, né? – Comentou consigo mesmo. Resolveu então ligar o som e ouvir algo que combinasse com o fim do livro:


What have I become?
my sweetest friend
everyone I know
goes away in the end
and you could call have it all
my empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
if I could start again
a million miles away
I would keep myself
I would find a way”

No momento em que as guitarras subiram uma pedra enorme entrou pela janela do quarto. Ela era enorme e fez um enorme barulho. Logo em seguida o que tinha era silêncio. O único som que emanava era o vento. E o vento vinha do final da música.

- O que foi isso? – Marcelo voltou ao normal quando a música acabou. Ele agora ia direto para a janela ver o que tinha acontecido. – Quem... – Outra pedra vinha em sua direção, do mesmo tamanho da outra, ele desabou no chão como um pingüim cai de uma geladeira. A pedra passou perto de sua cabeça. Ainda bem que aprendera a ter reflexos rápidos.

- Me desculpa! Não jogarei mais pedras, venha rápido pra janela! – Uma voz desesperada chamava-o pela janela. Marcelo olhou e viu uma menina de cabelos vermelhos, muito bonitos. Usando uma camisa preta e uma calça jeans. Ela estava realmente assustada. – Se você realmente gosta da Júlia desça logo. Aconteceu algo muito ruim.

Marcelo desceu correndo colocando a mesma roupa da noite anterior por estar mais perto e logo estava na casa de Júlia, ao lado de Mônica, assustado.

- O que houve Júlia? – Marcelo passava a mão na testa de sua amada.

- Nada... Só uma recaída. É normal isso acontecer comigo.

- Isso o que? O que você tem?

- Nada Marcelo. Saia daqui. Eu vou ficar bem.

- Vai nada, você está suando muito!

- Sai daqui Marcelo! – Julia berrou estridentemente. Depois se acalmou, beijou-o nos lábios e disse: - É coisa de mulher.

Marcelo não engoliu muito aquela resposta e disse que ficaria na frente da casa dela esperando e se ouvisse algo iria voltar.

- Porque chamou ele Mônica?

- Achei que você iria gostar. Vamos ver isso... Meu Deus... – As costas de Júlia estavam queimando em duas curvas. – O que é isso menina?

- Não sei. Nunca soube. Nenhum médico sabe o que pode ser.

- Que ruim...

Na verdade Natália sabia do que se tratava. E estava sentindo a dor de Julia dentro dela.

[PLAY]
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“Is this the real life?
Is this just fantasy?
Caught in a landslide
No escape from reality
Open your eyes
Look up to the skies and see”

Marcelo, que acabara de sair do hospital, estava deitado na sua cama, relaxando um pouco depois de agüentar uma noite naquela desconfortável cama da Santa Casa. Estava na verdade jogando um pouco de videogame, além de ouvir música. Fazia tempo que não parava para essas coisas. Sua vida estava realmente muito agitada ultimamente.

De repente alguém adentrou pela porta de seu quarto: Era André. E trazia flores.

- Como vai meu amado príncipe? – Chegou já apontando as rosas para seu amigo.

- Seu amado príncipe vai bem. Só com essa faixa de caratê na cabeça por precaução. – Olhou para as flores – Ó, essas rosas são para mim, minha princesa?

- Princesa? –André jogou as flores na cara de Marcelo bruscamente. – Princesa é a sua avó!

- Ai, que violência... – Marcelo fazia uma voz fanha e biquinho ao mesmo tempo.

- Essa princesa aqui tem músculos. – André resolveu mostra-los a Marcelo. Mas logo voltou ao normal achando aquela cena muito boiolenta, se é que essa expressão realmente existia. – Mas falando em princesa... Soube que uma menina te levou para o hospital. Era bonita hein? – Cutucou o amigo com os cotovelos.

- Era a Júlia.

- Ahhh... Então era muito bonita. – Tossiu – E ela cuidou direitinho de você no hospital? – Tossiu de novo.

- Claro que cuidou. Mas não dessa maneira que você fica imaginando. –Marcelo olhava com uma cara feia. Daquelas que só um amigo faz para o outro.

- Ai ai... Esses dois pombinhos são tão inocentes... Dá até pena de ver. – Sentou na cama de Marcelo e fez um cafuné pentelho no amigo.

- Você que só pensa merda. Fica vendo filme pornô de banca... Só pode dar nisso. – Tirou a mão do amigo da sua cabeça com um movimento brusco.

- Eu nada. Vocês que são dois santinhos... Aliás, esse foi um dos motivos pelo qual larguei a Júlia. Eita menina sem fogo.

- Percebe que está falando mal de minha amada? – Marcelo levantou uma das sobrancelhas.

- Ahh... Mas estou vendo que vocês foram feitos um para o outro. – Começou a rir – Vão morar num castelo, cheio de arvores em volta, com um bosque lindo e coelhinhos pulando. – André estava quase caindo da cama. Marcelo ajudou e lhe deu um empurrãozinho.

- Mas é bobão mesmo... – Marcelo olhava seu amigo com cara de reprovação.

- E você não sabe brincar também... – André tentava se recuperar. – Mas bem, chegou minha hora. Devo partir ó senhor príncipe dos corações de mel! – Deu uma gargalhada e saiu correndo. Um travesseiro chegou perto de atingi-lo, mas ficou na porta.

Marcelo resolveu ver as rosas. Havia um bilhete dentro. Resolveu ler:

“ Vê se melhora moleque. Não quero ver você morrer tão cedo. E não liga para as minha brincadeiras não. Júlia é uma pessoa muito legal e estou torcendo por vocês”

Marcelo sorriu, guardou as rosas num vaso com água e voltou a jogar seu videogame enquanto esperava a hora de ver sua princesa.

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Júlia estava sentada num muro. Sempre sentava ali nos intervalos. Era um muro alto e de lá ela observava toda a movimentação dos colegas. Sempre via as três loiras fúteis fazendo poses enquanto falavam sobre alguma coisa inútil e sem valor. Mais a esquerda ficavam as três patys góticas que ficavam sempre grudadas umas as outras olhando e falando mal das três garotas citadas anteriormente. Mais para esquerda ainda ela podia ver um grande grupo, só de meninos, riam escandalosamente. Apontavam para as três meninas de preto ali perto e para um outro grupo de meninos ali no canto que usavam óculos e faziam caras arrogantes ao olhar para os outros. Gostava também de observar uma menina solitária que ficava ali na...

- Ué...? – A menina não estava ali dessa vez. E ela já tinha visto ela naquele dia. – Será que...

- Procurando alguém? – Júlia quase caiu do muro. Era a menina que dava um tímido sorriso para frente, olhando o nada.

- Nossa, que susto, garota! – Julia estava com uma risada engasgada.

- Desculpa, mas você tava aí tão distraída como sempre... Não pude ser mais delicada. – Virou para Júlia com o mesmo sorriso de antes. – Meu nome é Mônica. E o seu? – Esticou a mão.

- Júlia. – Apertou a mão da menina. Estava sorrindo da situação que acabara de passar. – Você quase me mata. – Deu uma risadinha.

- É um dom que eu tenho. Mas não importa agora. – Mudou a voz. – Vejo que você está sempre olhando as pessoas daqui... Nunca fala com ninguém... Eu fico pensando nos seus motivos...

- Ah, você não gostaria de saber. – Júlia abaixou a cabeça.

- Por quê? É algo muito triste? Alguma decepção?

- Raiva.

- Bom motivo. Eu te entendo perfeitamente. – Segurou a mão de Júlia, que estranhou o ato. – Mas a vida continua né? Não há como fugir...

Júlia sentiu uma sensação estranha pelo seu corpo. Era como se a tristeza daquela garota, apesar de não estar aparente, entrasse no seu corpo pela sua mão.

- S- Se você diz... – Júlia disfarçadamente tirou a mão dali e passou no seu cabelo.

- Eu acho que o único jeito de se melhorar algo aqui nesse planetinha é levantando e fazendo algo de útil. Não adianta ficar parado olhando as coisas erradas. – Olhou fixamente para Júlia. – Não sei quanto a você, mas eu sinto pena dessas pessoas. Que vida medíocre... Mas também não posso falar nada. Nem sei por que falo e penso essas coisas. Sou igual a todos... – Sua cara voltou a ser triste como normalmente era.

- Mas você percebe as coisas ao seu redor. Isso já é uma grande vantagem sobre os demais. – Júlia tentou animar a garota. Mas ela não mudou nada. – Tente ser menos pessimista. Apesar de ser difícil...

- É foda, né? – A garota virou rindo e chorando ao mesmo tempo. – Somos todos uns fracos hipócritas. A gente fala da solução, mas temos o mesmo problema. – A menina pulou do muro caindo perfeitamente no chão e saiu andando, lentamente, ainda enxugando as lágrimas, em direção ao banheiro.

- Garota diferente essa... – Júlia falou sozinha. Tinha sido uma experiência muito estranha. Havia presenciado várias sensações diferentes emanando da garota. Ela realmente era diferente de qualquer coisa que havia conhecido na Terra.

“Vamos falar de pesticida
E de tragédias radioativas
De doenças incuráveis
Vamos falar de sua vida
Preste atenção ao que eles dizem
Ter esperança é hipocrisia
A felicidade é uma mentira
E a mentira é salvação”

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Eram três da tarde. Carlos estava andando pela rua. Ainda mancava muito. Não tinha entendido muito bem os motivos pelo qual o menino tinha salvado ele daquele traficante, estava confuso. Resolveu esquecer o assunto, olhou para frente e viu alguém que conhecia muito bem:

- Natália! – Abriu os braços para dar um abraço na garota. Mas ela esticou a mão e o empurrou para trás.

- Você está um nojo, hein? – Olhava incrédula para o garoto usando roupas rasgadas, velhas e sujas.

- É... Meu castigo é esse. Tenho que me acostumar com isso. Não estou agüentando mais essa vida de pobre. Não sei porque mas fico fumando esses negócios... Parecem me fazer tão bem.

- Quem te vê não acha que você descobriu a verdade faz pouco tempo... Está falando como um entendido no assunto. – Mônica olhava feio para ele.

- É como se minha cabeça fosse aberta. Eu quase posso ver o meu passado. – Disse dando um sorriso leve.

[PLAY]
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*Recando pertinente: Todo episódio tem uma das músicas citadas para download ou audição. Para ouvir clique no botão PLAY e para baixar clique na opção DOWNLOAD, que fica do lado.*

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“She’s in My Head
Like Television”

Desligou o som, estava ouvindo música desde que chegara da aula, virou para o lado na cama e começou a tentar dormir: Não conseguiu. Havia muitos pensamentos na sua cabeça. Não entendia o que sentia: Seu coração estava apertado, ele estava encolhido no cobertor, não conseguia nem fechar os olhos. O que ele tinha vivenciado logo de manhã o tinha preocupado. Mas não adiantava ficar ali sem dormir. Aquilo só iria atrapalhar o seu dia seguinte. Fechou os olhos e tentou forçar dormir: Não conseguiu de novo. Resolveu ler um bom livro até pegar no sono:

- Há! Iracema! É agora que eu durmo!

Leu o livro todo. Era um milagre. Ele estava chocado. Chocado e com sono. Mas não conseguia dormir. Decidiu então sair e ficar numa praça ali perto olhando pro nada no silêncio da noite.

Marcelo via essas coisas em filmes, ouvia em músicas e achava bonito. E realmente isso o relaxava: Olhar para a rua vazia de um banco de praça. Ficou lá olhando o nada até que ouviu um estalo alto: Era um tiro. Logo ficou com medo e se abaixou numa moita que estava ali. Viu um menino passando em disparada por ele: Era o menino que vira logo de manhã tocando violão. E atrás dele um outro homem com uma arma na mão. Estavam indo na direção de Marcelo. Ele que, como dissemos, via filmes demais teve logo a idéia de ajudar o garoto, mas pensou melhor e decidiu que não. A correria continuava e acabou vendo outro tiro. Este pegou o garoto na perna. Ele iria cair. Marcelo então correu em direção ao homem com arma que estava muito distraído tentando finalmente alcançar o garoto e decidiu empurrar ele para o canal que estava do lado dele. Só que ao se preparar para pular o homem percebeu sua presença e virou a arma para a direção dele. Marcelo não sabia mais o que estava acontecendo, ele havia perdido o foco dos seus olhos, sentiu uma dor forte na cabeça e logo depois um estalo muito mais alto do que os outros.

--

Júlia andava pelas ruas da cidade indo em direção à sua casa. Havia passado o dia todo sentada num banco de praça olhando as pessoas passando. Ela tinha essa mania de olhar as pessoas e imaginar que vida medíocre cada uma vivia. Pensava muito mal do mundo. Achava que aquilo não iria pra frente nunca. Havia perdido as esperanças na humanidade. Várias amigas, amigos, antigos namorados e pais falavam para ela tentar aproveitar melhor a vida em vez de ficar dizendo que o mundo estava perdido.

Foi então que andando viu uma cena que a fez ficar ainda mais descrente na humanidade: Um garoto estava cheirando alguma droga sentado no canal. Teve uma vontade imensa de lhe dar uma bronca. Mas como de costume ficou quieta e com aquele sentimento de tristeza profunda misturada com pena que sentimos, de verdade, poucas vezes na vida. Encostou-se à parede e ficou disfarçadamente olhando a cena e criticando o mundo na cabeça. Foi então que viu um homem chegar do lado do menino o ameaçando:

- Cadê minha grana? – Disse o homem.

- Q-Que grana cara? Eu não te paguei? – Respondeu o garoto.

- Essa última não!

Mal acabou de terminar de falar o homem sentiu uma dor terrível. O menino havia lhe dado um soco nas partes baixar e tinha saído correndo. O homem ainda tentando se recuperar puxou uma arma da jaqueta e começou a cambalear atrás do garoto.

Júlia vendo a cena foi atrás dos dois. Não sabia se era por vontade de ajudar ou por curiosidade. Essa ultima hipótese a fez se menosprezar profundamente. Essa era um dos sentimentos que ela mais tinha nojo. Buscava controla-lo ao máximo possível.

Continuou correndo e ouviu o primeiro tiro. Correu mais rápido, mesmo assustada. E viu de perto o segundo tiro. Viu o menino caindo e viu alguém muito conhecido dela correr em direção ao traficante: Era Marcelo. De repente deu um berro tão grande de medo que fez com que o traficante percebesse a aproximação de Marcelo e virassem em direção a ele e esquecer o garoto. O mesmo garoto que puxou uma perna do homem fazendo ele cair no canal com a arma a disparar para o alto. Marcelo bateu a cabeça no cimento e por lá ficou, inconsciente. O menino ficou parado no chão. Estava desesperado. Julia finalmente chegou perto deles:

- Marcelo?! Marcelo? – Não havia resposta de nosso protagonista.

- E-Ele tentou me salvar? – O garoto olhava e reconhecia aquele rosto. Era o mesmo de manhã. Arrependera-se totalmente do que tinha dito.

- Ei você! Olha o que esse seu vício provocou! O que você tem na cabeça? – Julia estava em lágrimas, com a mão cheia de sangue olhando para o menino.

Tonto, drogado, nervoso, chocado, arrependido e com um tiro na coxa o menino saiu mancando pra se esconder em algum lugar. Estava realmente perturbado.

Julia deixou-o ir porque estava muito preocupada com Marcelo. Tinha que leva-lo para um hospital. Mas ali no canal 1 onde se encontravam, perto da praia, era relativamente perto e longe da Santa Casa local. Precisava de uma carona. Como era de madrugada e nenhum carro estava passando por ali, revistou Marcelo e com o celular dele ligou para o hospital.

--

“ But I hear voices
And I see colors
But I wish I felt nothing
Then it might be easy for me
Like it is for you ”

Marcelo acordou. Não fazia idéia de que horas eram. Tentou procurar um relógio do lado dele: Não encontrou. Mas encontrou outra coisa. Julia estava do lado dele. Estava dormindo na cadeira. Marcelo logo a comparou com um anjo. Não costumava fazer essas comparações melosas que tanto repudiava em filmes. Mas foi inevitável. Só não sabia o porquê.

- Psiu! Julia... Psiu... – Chamava.

Julia, depois de alguns “psius”, acordou. E ao ver Marcelo são e salvo deu um grande sorriso de admiração.

- Então meu herói acordou? – Disse prontamente.
- Quem acordou agora foi você, minha bela. – Disse Marcelo dando uma risadinha. Mas logo resolveu entender a frase de Julia – Herói? Como assim? Eu só lembro de um berro alto, de uma arma na cara e de um barulho de tiro.

- Bem, o menino te ajudou. Mas se você não tivesse feito aquela loucura...

- E o menino está bem? – Marcelo parecia preocupado.

- Está. Estava mancando. Mas o seu caso era mais grave. – Explicou Julia – Bem, eu liguei para sua casa e deixei mensagem na secretária eletrônica. Não deve demorar pra eles chegarem. Agora eu preciso ir para minha aula. Já são seis da manhã!

- Já vai? Irá me abandonar aqui, tão machucado? – Marcelo fazia manha tão bem que não havia como segurar o riso diante de uma cena dessas. Julia também não conseguiu segurar.

- Muito engraçado, espertinho. – Julia foi até a cama onde estava Marcelo e lhe deu o melhor remédio que podia querer: Um tenro beijo. – Vê se melhora logo hein? Vou estar no banco hoje como combinamos.

- Pode deixar que estarei lá com certeza! – Marcelo mandou um beijo com a mão para Julia que sorriu e saiu do quarto.

Não muito mais tarde os pais de Marcelo apareceram preocupados com o filho naquele hospital.

- Meu filho, você está bem? – Disse a mãe desesperada.

- Estou sim mãe. Bem melhor!

- O que diabos você fez ontem pra acontecer isso contigo? Quer nos matar do coração? – Disse o pai.

- Eu estava dando uma andada por aí quando vi um garoto sendo perseguido. Aí eu fui ajudar...

- Podia ter morrido! Mas é um inconseqüente mesmo!

- Deixa ele querido! Não vê que ele ainda está mal?

- Ok. Depois nos falaremos melhor. Agora tenho que ir trabalhar. – O pai saiu do quarto.

- Você não sabe a cara que ele fez quando ouviu a mensagem na secretária. Ficou desesperado. – Retomou a conversa a mãe. – Falando na mensagem... Quem era aquela garota que ligou para gente? Queria lhe agradecer pelo que fez...

- Era um anjo mãe! – brincou Marcelo.

[PLAY]
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Marcelo acordou cedo. Eram quatro e meia da manhã. O sol ainda não tinha aparecido no céu sem imagens de Santos. Tentou dormir de novo, mas não sentia sono nenhum. Resolveu então tomar um banho e café enquanto pensava no que fazer. Cantarolava uma música logo de manhã. A música veio a sua cabeça sem nem bater na porta:


I've nothing much to offer
There's nothing much to take
I'm an absolute beginner
And I'm absolutely sane

(...)

If our love song
Could fly over mountains
Could laugh at the ocean
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true

- Acordar com Absolute Beginners na cabeça... Deve ser um bom sinal - Disse pra si mesmo enquanto sentava pra tomar seu café forte de todos os dias. O solo de um instrumento que ele pensava ser um sax continuava a tocar na sua cabeça.

Logo terminou o café, se trocou, pegou seu MP3 Player e saiu de casa. Não iria precisar pegar o ônibus para ir à escola, ainda estava muito cedo. Resolveu caminhar pela praia enquanto ouvia algumas músicas.

Ao sair deixou um bilhete para sua mãe avisando do fato e pegou a mochila. Quando estava saindo de casa avistou uma pessoa na rua: Era um menino de aproximadamente 17 anos tocando um violão e cantando com muita vontade:


She looks like the real thing
She tastes like the real thing
My fake plastic love

But I can't help the feeling
I could blow through the ceiling
If I just turn and run

And it wears me out, it wears me out
It wears me out, it wears me out

And if I could be who you wanted
If I could be who you wanted
All the time, all the time

- Que tá olhando o playboyzinho? - Disse o garoto que tinha os cabelos encaracolados e negros, parecia não tomar banho faz. alguns dias.

- Nada... - Marcelo voltou a andar normalmente - Você toca bem garoto. E canta também hehe.

- Cuida da tua vida ô mané! - Berrou o menino.

- Cuidarei. - Marcelo saiu andando um pouco irritado com a hostilidade do menino. Foi andando até chegar à praia, diminuiu o passo e foi apreciando a paisagem, enquanto ouvia uma de suas mp3's:


Não vou viver, como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
As vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão

Estava tranqüilo olhando o mar quando passou pelo banco mais importante na praia, para ele. Olhou pro relógio e viu que ainda tinha tempo, resolveu se sentar e pensar um pouco enquanto olhava para o mar. O dito cujo estava lá como sempre, sujo, mas ainda belo de longe. Ficou pensando em Julia mais uma vez. Nenhum pensamento novo na mente... Sempre os mesmos. Aliás, percebera que Julia ocupava uma boa parte dos seus pensamentos durante seus dias. Achava que estava ficando louco.

- Julia, Julia, Julia. Sai daqui um pouco!

- Nossa! Você é bom em prever as coisas! Mas porque tanta hostilidade? - Disse uma voz atrás dele.

- Ju-Julia? - Parecia espantado ao vê-la ali.

- Oi.

- Olha só, a gente combina sexta e quinta feira o destino nos une! - Tentava corrigir a má impressão que tinha deixado.

- É... Bem, já estou indo. Até amanhã Marcelo. - Julia saiu andando sem mais nem menos.

Marcelo ficou olhando um pouco um pouco confuso. O que teria acontecido? Começava a acreditar na teoria de André. Ficou mais um bom tempo lá no banco pensando naquilo até olhar para o relógio e ver que estava atrasado.

- Caraca!

Marcelo foi andando aos passos longos para a escola, afobado, atropelando algumas pessoas e ouvindo sua musiquinha:


As though you were born
And so you thought
The future's ours
To keep and hold
A child within
Has healing ways
It sees me through
My darkest days

I'm gonna keep catching that butterfly
In that dream of mine
I'm gonna keep catching that butterfly
In that dream of mine

Chegando a escola Marcelo avistou André logo no jardim de entrada esperando o sinal bater.

- Que está fazendo aqui André? Quer se atrasar de novo? – Disse um Marcelo ofegante.

- Fica calmo Marcelo... O professor avisou que ia atrasar... Problemas com o filhinho dele...

- E a gente vai ficar sem aula?

- Que nada, a professora de inglês vem aí dar aula. Ela mora aqui perto e como hoje tem aula dela mesmo... – André coçava os olhos enquanto escorregava mais e mais na parede.

- Ahh bom... Mas bem, encontrei a Julia hoje. – Marcelo disse de súbito fazendo com que André escorregasse de uma vez e sentasse no chão.

- A essa hora?

- Sim, lá na praia... Ela foi meio... Seca. – Marcelo estava falando meio envergonhado.

- Amigo... Julia é assim mesmo. Ela às vezes é a menina mais doce do planeta. Em seguida pode virar um monstro de sete cabeças! – Dizia André tentando segurar as risadas. Afinal, ele já tinha passado por essa situação. – A Julia é uma menina que se defende bastante de coisas novas... Ela precisa de espaço do começo da relação. Pelo menos foi assim comigo.

- Ahh sim, eu sei como você dá espaço... Espaço suficiente pra ela não ver você pegando outra, né? – Marcelo não definia se estava brincando ou querendo falar realmente mal de seu amigo.

- Muito engraçado. Mas bem, no fundo é isso mesmo. Por isso deu certo no começo. Mas aí com o tempo ela se sentindo mais segura colou mais em mim. E você sabe... Não gosto de relacionamentos que me prendem.

- Sei muito bem...

- Mas você é o par perfeito pra ela! Você é o cara que sogrinha pediu a Deus hohoho – Quando mais André falava mais rugas ameaçavam aparecer na testa de Marcelo. – Olha Celão, a professora ali!

- Bom dia, meninos.

- Bom dia professora! – André levantou de prontidão e fez referência a professora, depois beijou a sua mão.

- Sempre me cantando né André? Você não tem jeito. – A professora tinha cabelos encaracolados e ruivos. Realmente bonita, chamava a atenção de vários alunos.

- Liga pra ele não professora. – Marcelo se intrometeu. – Ele vai te trocar por outra rapidinho!

- Fala isso não Marcelo! - André deu um tapinha na nuca do amigo.

- Bem, vamos lá garotos. – A professora agora se dirigia a sala de aula. Os dois meninos a seguiram em direção a classe.

---

Julia estava sentada em um muro de sua escola. Olhava para o céu com uma cara de tristeza enquanto uma lágrima caia pelo seu rosto.

[PLAY]
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Marcelo estava com André no já conhecido Café Hollywood tomando o seu café e esperando o amigo esclarecer todas as suas duvidas sobre Julia.

- E então? - Disse Marcelo colocando a xícara de café no pires enquanto olhava nos olhos de André.

- E então o que? - Disse André com uma cara confusa.

- Você conhece a Julia? Como assim "Já namoramos"?

- Ah, a Julia foi o grande amor de minha vida. - Disse André brincando. Marcelo continuou olhando pra ele com uma cara nada amigável. - Terminei com ela a 4 mêses atrás...

- Só 4 mêses? Bem, isso foi antes do cursinho começar e eu te rever... namorava ela desde quando? Eu deveria lembrar dela. Afinal, se foi "O amor de sua vida, ui ui ui" você deve ter ficado ela por um bom tempo.

- Namorei ela desde Janeiro...

- E terminou com ela em março? - Marcelo fez uma cara de espanto.

- É oras, 2 mêses... Um recorde. - André começou a gargalhar.

- Piff... E eu achando que você falava sério... - Marcelo deu o ultimo gole no seu café, pegou seu chiclete e dessa vez jogou a embalagem na testa de André.

- Ai Marcelo, você me diverte... - André ainda estava tentando parar de dar risada.

- Chega né, André?

- Ok, ok... Mas bem, então é a Julia né? - Disse André enquanto parava de rir.

- Sim, a Julia. - Disse Marcelo enquanto uma música começava a tocar no estabelecimento:

"
Hey where did we go
Days when the rains came
Down in a hollow
Playin' a new game

Laughin' and a runnin' hey hey
Skippin' and a jumpin'
In the misty mornin' fog
With our, our hearts a thumpin'
And you my brown eyed girl
You my brown eyed girl
"

- Cuidado amigo, ela é meio inconstante. Se é que você me entende... - Disse André olhando para a rua.

- Como assim? A Julia é um doce de pessoa!

- É, mas as vezes eu penso que existem pelo menos umas 4 Julias naquele corpo. - André deu uma risadinha cínica enquanto mordia sua barra de cereais tranquilamente.

- Você é que é fresco André... Aposto que você deve ter provocado isso nela! - Marcelo parecia querer, também, tirar um sarro do amigo.

- Ha, ha, ha. Você que sabe Marcelo. - Disse debochadamente André. - Vamos voltar a aula!

Naquela noite de Quarta-Feira Marcelo decidiu ligar para Julia para ver como ela estava. Ainda eram sete da noite. O telefone tocou 4 vezes e finalmente foi atendido por uma voz bem grossa:

- Alô? - Disse a voz.

- O-oi, eu queria falar com a Julia, por favor.

- Vou chama-la. - A voz grossa de repente ficou mais distante pois chamava Julia.

- Alô, quem fala? - Julia atendeu o telefone.

- Oi Julia, sou eu.

- "Eu" quem?

- Eu, Marcelo! Lembra de domingo a noite?

- Ahh sim! Oi Marcelo! Desculpa, ainda não me acostumei com a sua voz. - Disse Julia sorrindo com um tom meio envergonhado.

- Liguei para ver como você está!

- Ah, eu estou bem...

- É mesmo? E o livro, quando vou poder ler?

- Hum... Em breve!

- Que tal na sexta a noite? No mesmo banco?

- Pode ser! Te vejo lá as... - Parou para pensar um pouco. - Que tal as oito da noite?

- Combinado! Estarei esperando, hein?

- Pode deixar Celo, posso te chamar assim né? - Disse dando uma risadinha.

- Pode sim, hehe.

- Ok. Então... - De repente parou de falar, sua voz reapareceu, só que não era direcionada a ele e sim a outra pessoa - Calma, espera aí, já to indo!

- Alô?

- Espera Marcelo... - Disse secamente enquanto continuava a falar alto - Não pode fazer sozinho enquanto eu falo no telefone? É só olhar e desligar quando estiver pronto, caralho!

Marcelo esperarva, meio envergonhado.

- Olha Marcelo, te vejo na sexta, aqui tá um inferno!

- Ok. Te vejo sexta, beijos Julia!

- Tchau.

Marcelo ficou imaginando como seria a casa de Julia naquele momento. Estava com uma sensação ruim pelo final da conversa, mas sabia que não era por causa dele. Resolveu então deitar na sua cama e ir dormir. Mas seus pensamentos estavam confusos. Uma nova relação fazia isso com ele. Já teve muitas experiências ruims no passado e não aentendia como funcionava a engrenagem chamada "Amor". Era algo que, pelo que ele entendia, deveria ser um sentimento bom. Mas trazia tanto sofrimento e provações. Por quê ele tinha que passar po essas provas? Pra que sofrer? Ele não sabia a resposta. Mas sabia que todas as meninas que ele teve uma relação sem sofrimento, pelo menos pra ele, não duraram muito tempo.

Decidiu então parar de divagar e dormir. Amanhã seria outro dia. No seu rádio - tinha o costume de ouvir música para dormir - tocava uma música:

"
Atravesso a noite com um verso
Que não se resolve
Na outra mão as flores
Como se flores bastassem
Eu espero
E espero
Não funcionam luzes, telefones
Nada se resolve
Trens parados, carros enguiçados
Aviões no pátio esperam
E esperam
A chave que abre o céu
D´aonde caem as palavras
A palavra certa
Que faça o mundo andar
"

[PLAY]
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Marcelo andava pelas ruas de sua cidade. Ele se encaminhava para o seu cursinho de que tanto precisava para passar numa faculdade decente. Isso o irritava muito. Afinal, a faculdade não era pra ser de graça? Por que gastar uma nota preta?

- Oe! - Cumprimentou um colega de classe.

- Fala ae Marcelo! - Respondeu o outro.

- Desculpa a demora, tava distraído enquanto vinha para cá. Qual a matéria de hoje?

- Ah... - Olhou de novo para a lousa o garoto - Pessoa! - Falou sorrindo envergonhado.

- Nem tava prestando atenção né? - Reclamou Marcelo.

As aulas se passaram e no intervalo os dois amigos foram a uma cafeteria ali próxima - como sempre faziam. Um ambiente agradável e calmo. Um radinho tocava uma música de fundo:

"Yes and how many times must a man look up,
Before he can see the sky?
Yes and how many ears must one man have,
Before he can hear people cry?
Yes and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind"

- E ae André, como vão os estudos? - Perguntou Marcelo logo depois de pedirem um café para cada um.

- Hohoho, os estudos... - André olhou pra cima com uma cara de sonso incomparável.

- Que coisa hein? Tá certo que esse vestibular é injusto, mas não é por isso que você não vai se esforçar pra passar né? - Marcelo repreendeu o amigo.

- Que nada, nesse mundo existem dois tipos de pessoas: As que tem dinheiro e as que tem que ter dinheiro. Eu tenho dinheiro, não preciso criar novas fontes. Só uma faculdade paga simples e eu já tenho meu futuro garantido. - Falou arrogantemente o amigo.

- Eu não compartilho dessa sua opinião André, mas tudo bem, eu te entendo. - Falou Marcelo de um jeito que parecia querer fugir de uma briga. E assim voltou a olhar para a janela.

O rádio continuava a tocar:

"Once upon a time you dressed so fine
You threw the bums a dime in your prime, didn't you?
People'd call, say, "Beware doll, you're bound to fall"
You thought they were all kiddin' you
You used to laugh about
Everybody that was hangin' out
Now you don't talk so loud
Now you don't seem so proud
About having to be scrounging for your next meal.
How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?"

- Que velharia essas músicas hein Joaquim. - Falou André para o dono da cafeteria que estava ali perto.

- Bob Dylan, meu amigo! Pode ser velharia, mas é melhor que noventa e nove por cento das músicas de hoje que tocam nas rádios. - Respondeu o Seu Joaquim

- Você que sabe... - André virou e viu que logo o nerd musical que era o seu amigo não estava interessado na conversa, estava olhando para a janela viajando. - Ei, tá no mundo da lua Marcelo?

- Estava pensando em algumas coisas...

- Aposto que tem uma garota no meio disso, hehehe - Provocou.

- É André... Você é habilidoso para essas coisas. É sim, você acertou - Marcelo deu um sorrisinho tímido enquanto olhava para baixo.

- E qual o nome dela? - André se ajeitou na cadeira todo animado.

- Julia...

- Julia? Nome bonitão hein? hehehe

- É sim...

- O que é isso Marcelo? Achei que você estaria mais animado! Qual o problema? Tomou um fora?

- Não, na verdade foi ótimo - Marcelo pegou o dinheiro do café e colocou na mesa. Depois abriu um chiclete e jogou o papel no distante lixo, acertando-o. - Mas você sabe da minha situação...

- Sei... - André chegou mais perto de Marcelo e continuou a falar em um tom mais baixo - Mas não se esqueça que você ainda tem tempo, não deixe que o futuro estrague o presente.

- Hoho, sempre com alguma coisa pra me acertar em cheio né André?

- Você sabe, eu sou foda! - Falava isso enquanto fazia cara de gostosão para Marcelo. - Mas aposto que essa garota é gostosona hein, hein? - Cutucou o amigo

- Ahh... Cala a boca André!

O tempo se passou, mais aulas foram assistidas e no final daquele dia desgastante os dois amigos se despediram:

- Até mais André!

- Até, garanhão! - Marcelo ao ouvir isso ficou paralisado olhando com uma cara de ameaça para André - Brincadeira, brincadeira! Hehehe.

André se dirigiu para o seu apartamento que ficava ali perto, de frente a praia, no caminho, porém, encontrou uma amiga que não via faz algumas semanas:

- Olá Julia! - André cumprimentou ainda um pouco longe dela.

- Olha se não é o André!? Como vai garoto? - Disse chegando finalmente perto de André - E a Luiza?

- Passado, passado! - Sorriu o garoto.

- Passado? Mais uma não é? Você não tem jeito mesmo... - Julia fez uma cara de "nervosa" para André que apenas deu uma gargalhada - Qual foi o seu recorde? 3 semanas? 1 mês?

- Ora Julia, você sabe muito bem! Dois meses oras - Sorriu o garoto.

- É, foram dois meses legais até você se enjoar de mim né?

- Hohoho, não me deixe em saia justa!

- Ok, mas saiba que encontrei gente muito melhor que você! - Falou com certa malícia a menina.

- Duvido! Quem pode ser melhor que eu?

- Ora - Julia soltou uma risadinha - Quer que eu responda mesmo, André?

- Você tá malvada hoje hein...

- Desculpa, desculpa... O nome dele é Marcelo e, além de lindo, toca e canta violão! - Resolveu se gabar a menina.

- Ahn... Marcelo?

- Sim, Marcelo!

No dia seguinte, na sala de aula, André teve sua vez de chegar atrasado:

- E ae, André! - Cumprimentou Marcelo.

- Fala, garanhão! - brincou o amigo.

- Continua com esse papo? Acho que não devia ter contado a você sobre ontem... - Marcelo virou meio nervoso para o caderno.

- Olha, você que pensa... Vi ela ontem! - Sorriu o garoto.

- O-o que? - Repentinamente virou espantado para o amigo.

- Julia, certo? Cabelo caracol, preto... Olhos castanhos... Meio magra pro meu gosto, mas sempre cativante hehe - Falava isso enquanto olhava para Marcelo que estava boquiaberto.

- Vo-Você conhece ela?

- Sim, já namoramos, faz dois anos... A minha mãe e a dela trabalham no mesmo lugar, são grandes amigas. Encontrei ela ontem enquanto voltava para casa.

- Na-namoraram?

- Para de gaguejar! Não combina com você.

- Ei vocês dois - Interrompeu o professor - Se vocês não querem aprender tudo bem. Mas não atrapalhem o resto da classe.

- Desculpa professor - Falou André meio envergonhado. - Depois falamos sobre isso, ok? - Disse baixinho virando para Marcelo.

- Ok... - respondeu o garoto. Marcelo estava confuso. Feliz por ter achado uma ligação com Julia. Mas chocado por ela ter namorado André, realmente não combinava com a Julia que ele conheceu. Resolveu voltar a aula de Física que estava tendo e pensar isso depois, no intervalo, com André.

[PLAY]
460>_641386

- E o que uma menina tão sorridente como você faz a essa hora num banco de praia, com os olhos vermelhos? - Perguntou Marcelo curioso.

- Ah, como pode ver, não estou sempre sorridente, hehe - Falou meio envergonhada Julia, mas continuava sorrindo - É essa vida, era tão fácil quando eu era menininha...

- Concordo com você - Falou Marcelo com os olhos abaixados - Quando crescemos, o mundo faz questão de colocar a gente na parede... Acabamos esquecendo das coisas bonitas da vida... Brigamos com nossos irmãos, esquecemos nossos velhos amigos, perdemos o amor pela pessoa mais querida da nossa vida... Só há tempo para continuar a trabalhar e fazer com que o mundo continue a não pensar.

- Sim! E o mais legal é que quando a gente crescer vamos ser iguais a todos os outros, mesmo com essas idéias na nossa cabeça neste momento. É triste... - Julia suspirou e olhou com olhos vazios para o mar.

Nesse momento, Marcelo puxou o violão para seus braços e começou a cantar em tom cômico:

"
D F#m G D F#m G
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
D F#m G E A4 A
Tá em casa, guardado por Deus, contando vil metal
D G D G
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
D F#m G Ab A
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
D F#m G Ab A
Ainda somos os mesmos e vivemos
D F#m G E A4 D
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais
"

- Hahaha, nem lembrava dessa! Elis Regina! - A menina pareceu mais alegre.

- Sim, "como nossos pais"! - Respondeu alegre, Marcelo que já encostava o violão do lado dele de novo.

Os dois continuaram a conversar sobre suas vidas e a descobrir os gostos em comum. Julia apreciava música também - apesar de não ser tão viciada quanto Marcelo - E gostava também de ler livros, devorava-os sempre que podia. Estava tentando entrar para a faculdade de letras, mas obteve muitas decepções ao mostrar um de seus livros para algumas amigas: Todas elas, sem exceção, disseram que não entenderam nada do que estava escrito lá. Julia sentiu o forte golpe, mas continua a tentar escrever alguns livros.

- O que? Não gostaram deles? - Marcelo fez uma cara de espanto.

- Não, não entenderam bulhufas! - Desabafou a garota.

- Pois eu quero ler esse seu livro! - Se animou Marcelo

- Rascunho. - Corrigiu Julia.

- Que seja, aposto que já tá muito bom. - Sorriu Marcelo.

- Que nada, não fale besteiras, você nem leu!

- Ok, então irei ler antes de dar opinião...

E continuaram a conversa madrugada a fora, era incrível para os dois verem que os assuntos não paravam de surgir. Mal perceberam o tempo passar, até que uma hora Julia se tocou e olhou para o relógio:

- Nossa, são quase duas da manhã! - Falou espantada.

- Duas? - Marcelo perguntou incrédulo.

- Duas! - respondeu esbugalhando os olhos a menina.

- É, nem percebi o tempo passar, hehe - Marcelo olhou para Julia - Também, com uma companhia dessas, quem perceberia?

- Sei, aposto que me achou uma chata e só tá falando isso pra eu não chorar mais - A menina fazia cara de brincadeira.

- hahaha, nunca faria isso!

- Então, não me achou chata? - A menina falou abaixando a voz e fixando os olhos no garoto a sua frente.

- Claro que não - O menino chegou mais perto falando com convicção, mas também com voz baixa.

- Não mesmo...?

- Não...

- Nem um...

Naquele momento o silencio imperou, apenas as ondas do mar faziam barulho. A lua, como sempre, brilhava e uma brisa fria passava pelo local sem ser percebida pelos dois - que, aliás, não tinham motivos para perceber algo que não fosse o "evento" que estava ocorrendo naquele momento.

As duas e meia os dois jovens trocaram os últimos carinhos e cada um foi para um lado, para suas respectivas casas. Marcelo estava caminhando e ao passar perto de uma casa ouviu uma música familiar:

"
G Cadd9 G D Em
we'll crucify the insincere tonight (tonight)
G Cadd9 G D Em
we'll make things right, we'll feel it all tonight (tonight)
G Cadd9 G D Em
we'll find a way to offer up the night, tonight
G Cadd9 G D Em
the indescribable moments of your life, tonight
G Cadd9 G D Em
the impossible is possible tonight (tonight)
G Cadd9
believe in me as i believe in you, tonight
G D Em
tonight, tonight, tonight, tonight...
"

[PLAY]
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Era noite na cidade de Santos, Litoral de São Paulo, o céu como sempre estava sem estrelas, só a lua aparecia. No calçadão, em frente a praia, um garoto andava, com seu violão nas costas, olhando para baixo com uma cara desanimada. Tinha cabelo preto e grande, um pouco bagunçado. Usava calça jeans e uma camiseta preta sem nada escrito.

Não tinha sido um dia bom: Não dormiu bem a noite inteira, acordava a cada 2 horas, revirou a noite toda no travisseiro. No fim, só levantou da cama lá pelas 14 horas.

- Boaa tardee! - Disse o pai do garoto em tom irônico e ao mesmo tempo de bronca, como só os pais conseguem fazer.

- Hehe, bom dia pai. - Respondeu o garoto ainda se arrastando pelo chão.

Depois de almoçar, deitou num canto e ficou lá com seu violão dedilhando. Seus pais vendo aquilo logo pararam ali e começaram a reclamar:

- Não vai estudar não? Assim você nunca vai passar na faculdade! - Falou o pai.

- Isso mesmo filho! Que folga é essa? - Berrou a mãe.

- Sim, sim, to indo - Falou resmungando baixo o filho.

O que se seguiu foi uma onda de broncas e sermões sobre responsabilidade e futuro. Mas o garoto não podia fazer nada. Ele sabia que estava errado, sabia que seu pai estava certo. Mas ele não encontrava forças em si mesmo para continuar lutando contra os seus erros, parecia que algo o dominava.

Os pais continuaram a bronca, desligaram o computador do menino, que estava ouvindo música por ele enquanto baixava mais coisas. O filho não gostou da atitude: O problema dele não era as coisas materiais, e sim ele mesmo. Ele tinha que melhorar, não eram as coisas que deviam sumir dali. Mas ele encarou na boa, enquanto seu coração apertava cada vez mais.

- E vai já estudar, senta naquela porra de escrivaninha e estude! - Berrou o pai transtornado

- To indo... - Falou o garoto, dando uma pequena bufada.

- Que foi? Não tá levando a sério?

- N...

- Tá tirando uma da minha cara?

- É c...

- Por que essa cara de superior hein?

- ...

- Odeio esse seu cinismo!

- Tá caralho! Eu to indo estudar então - O garoto explodiu, tentava conversar mas não conseguia. Seu pai ficou ainda mais nervoso e segurou a gola da camisa do seu filho e olhou bem nos olhos dele:

- Algum problema?

- N-Não - Tremeu o garoto - Ne-Nenhum.

O pai soltou ele e o menino ficou lá parado. Assim que sairam do quarto, o menino tratou de se trocar e pegar o violão. Enquanto a briga entre sua mãe e seu pai começava ele saiu de casa com o violão nas costas, foi andar... E foi aí onde começamos.

- Vou parar aqui nesse banco... - Pensou o menino.

Ele sentou no banco, retirou o seu violão da capa e começou a dedilhar ele, estava num banco em frente a praia, olhando para o mar:

"
D G
When the day is long
D
and the night,
G D
the night is yours alone,
G
when you're sure you've had enough
D G
of this life, well hang on... "

Não sabia o que fazer... Voltar Pra casa? Dormir ali mesmo sabendo que era perigoso? Procurar alguém que ele considerava pelo menos um pouco amigo, já que não achava que tinha realmente um amigo? Enquanto fazia essas perguntas alguém que estava em um banco ao lado levantou e foi até ele:

- Olá! Nossa, eu ouvi você tocar... É Everybody Hurts do R.E.M, né? - Comentou a menina. Ela tinha cabelos pretos, longos e encaracolados, mas estavam presos. Seus olhos eram castanhos e estavam um pouco vermelhos na hora.

- Ah... - Acordou do transe o garoto - Sim, sim! Eu adoro essa música, e achei que era uma boa hora para toca-la...

- Sei como é... - A menina falou olhando pra baixo - Posso chorar minhas mágoas nesse banco também? - Sorriu.

- Opa, claro, sente ae, vamos nos afogar em águas salgadas, e olha que eu não esou falando do mar hehe - Respondeu brincando o menino.

- Hahaha, sei... - Disse a garota que estava com um belo sorriso na cara - Ei, qual é o seu nome?

- Opa, meu nome é Marcelo, prazer. - estendeu a mão ára a menina - E o seu?

- O meu é Julia. - Aceitou o cumprimento apertando a mão do garoto - Ei, você toca legal! Toca uma música pra mim aí!

- Vamos ver se você conhece essa! - O garoto começou a tocar o seu violão:

" A B11/A
All our friends / Now seem so thin and frail
E D
Slinky secrets / Hotter than the sun
A B11/A
No peachy prayers / No trendy rush of faith
E D
I'm with you / So I can't go on

E D A
All my violence / Raining tears upon the sheet
E D A
I'm bewildered / For we're strangers when we meet... "

- Nossa! De quem é essa? - Perguntou a menina, mais animada.

- David Bowie! Strangers When We Meet, adoro essa música. - O garoto abriu um sorriso.

- Realmente gostei, depois quero ouvir a original hein? - Cobrou a menina sorridente.

- Pode deixar! - Apertou mais uma vez a mão da menina - Olha... que brinco legal! - Começou a mexer no brinco da menina com cuidado, era uma estrela.

[PLAY]
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Era noite na cidade de Santos, Litoral de São Paulo, o céu como sempre estava sem estrelas, só a lua aparecia. No calçadão, em frente a praia, um garoto andava, com seu violão nas costas, olhando para baixo com uma cara desanimada. Tinha cabelo preto e grande, um pouco bagunçado. Usava calça jeans e uma camiseta preta sem nada escrito.

Não tinha sido um dia bom: Não dormiu bem a noite inteira, acordava a cada 2 horas, revirou a noite toda no travisseiro. No fim, só levantou da cama lá pelas 14 horas.

- Boaa tardee! - Disse o pai do garoto em tom irônico e ao mesmo tempo de bronca, como só os pais conseguem fazer.

- Hehe, bom dia pai. - Respondeu o garoto ainda se arrastando pelo chão.

Depois de almoçar, deitou num canto e ficou lá com seu violão dedilhando. Seus pais vendo aquilo logo pararam ali e começaram a reclamar:

- Não vai estudar não? Assim você nunca vai passar na faculdade! - Falou o pai.

- Isso mesmo filho! Que folga é essa? - Berrou a mãe.

- Sim, sim, to indo - Falou resmungando baixo o filho.

O que se seguiu foi uma onda de broncas e sermões sobre responsabilidade e futuro. Mas o garoto não podia fazer nada. Ele sabia que estava errado, sabia que seu pai estava certo. Mas ele não encontrava forças em si mesmo para continuar lutando contra os seus erros, parecia que algo o dominava.

Os pais continuaram a bronca, desligaram o computador do menino, que estava ouvindo música por ele enquanto baixava mais coisas. O filho não gostou da atitude: O problema dele não era as coisas materiais, e sim ele mesmo. Ele tinha que melhorar, não eram as coisas que deviam sumir dali. Mas ele encarou na boa, enquanto seu coração apertava cada vez mais.

- E vai já estudar, senta naquela porra de escrivaninha e estude! - Berrou o pai transtornado

- To indo... - Falou o garoto, dando uma pequena bufada.

- Que foi? Não tá levando a sério?

- N...

- Tá tirando uma da minha cara?

- É c...

- Por que essa cara de superior hein?

- ...

- Odeio esse seu cinismo!

- Tá caralho! Eu to indo estudar então - O garoto explodiu, tentava conversar mas não conseguia. Seu pai ficou ainda mais nervoso e segurou a gola da camisa do seu filho e olhou bem nos olhos dele:

- Algum problema?

- N-Não - Tremeu o garoto - Ne-Nenhum.

O pai soltou ele e o menino ficou lá parado. Assim que sairam do quarto, o menino tratou de se trocar e pegar o violão. Enquanto a briga entre sua mãe e seu pai começava ele saiu de casa com o violão nas costas, foi andar... E foi aí onde começamos.

- Vou parar aqui nesse banco... - Pensou o menino.

Ele sentou no banco, retirou o seu violão da capa e começou a dedilhar ele, estava num banco em frente a praia, olhando para o mar:

"
D G
When the day is long
D
and the night,
G D
the night is yours alone,
G
when you're sure you've had enough
D G
of this life, well hang on... "

Não sabia o que fazer... Voltar Pra casa? Dormir ali mesmo sabendo que era perigoso? Procurar alguém que ele considerava pelo menos um pouco amigo, já que não achava que tinha realmente um amigo? Enquanto fazia essas perguntas alguém que estava em um banco ao lado levantou e foi até ele:

- Olá! Nossa, eu ouvi você tocar... É Everybody Hurts do R.E.M, né? - Comentou a menina. Ela tinha cabelos pretos, longos e encaracolados, mas estavam presos. Seus olhos eram castanhos e estavam um pouco vermelhos na hora.

- Ah... - Acordou do transe o garoto - Sim, sim! Eu adoro essa música, e achei que era uma boa hora para toca-la...

- Sei como é... - A menina falou olhando pra baixo - Posso chorar minhas mágoas nesse banco também? - Sorriu.

- Opa, claro, sente ae, vamos nos afogar em águas salgadas, e olha que eu não esou falando do mar hehe - Respondeu brincando o menino.

- Hahaha, sei... - Disse a garota que estava com um belo sorriso na cara - Ei, qual é o seu nome?

- Opa, meu nome é Marcelo, prazer. - estendeu a mão ára a menina - E o seu?

- O meu é Julia. - Aceitou o cumprimento apertando a mão do garoto - Ei, você toca legal! Toca uma música pra mim aí!

- Vamos ver se você conhece essa! - O garoto começou a tocar o seu violão:

" A B11/A
All our friends / Now seem so thin and frail
E D
Slinky secrets / Hotter than the sun
A B11/A
No peachy prayers / No trendy rush of faith
E D
I'm with you / So I can't go on

E D A
All my violence / Raining tears upon the sheet
E D A
I'm bewildered / For we're strangers when we meet... "

- Nossa! De quem é essa? - Perguntou a menina, mais animada.

- David Bowie! Strangers When We Meet, adoro essa música. - O garoto abriu um sorriso.

- Realmente gostei, depois quero ouvir a original hein? - Cobrou a menina sorridente.

- Pode deixar! - Apertou mais uma vez a mão da menina - Olha... que brinco legal! - Começou a mexer no brinco da menina com cuidado, era uma estrela.

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